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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A canalhice do golpe



Por Danilo Fischer

O impeachment e a bestialidade do campo progressista que, provavelmente, você faz parte.
O PT surgiu em um contexto específico da história, quando havia um esgotamento da ditadura cívico-militar, uma vez que a segunda crise do petróleo perturbava o Ocidente e fragilizava as incipientes economias periféricas.
Para os militares e as elites dominantes, ficava difícil convencer a classe média de ser possível haver uma saída e, com isso, movimentos sufocados pelos anos de chumbo encontraram campo fértil para arrefecer as bandeiras, entre elas, as que diziam respeito à democracia.
Nessa luta, o PT, partido aguerrido, formado pelo proletariado urbano e rural, e os que persistiam à margem dessa relação, como efeitos colaterais do modelo hegemônico (exemplo os sem-terra), além de intelectuais orgânicos e teólogos da libertação, entrou em campo na luta pelas “diretas já”.
Fato despercebido, mas que deve ser evidenciado, pois explica o processo contemporâneo de nossa política, as “diretas já” não atingiu o resultado almejado, o que mostrou que quem estava no controle ainda eram as elites que, por sua vez, entendiam que “largar o osso” era o mais inteligente, já que “faltava carne” e, o arrefecimento dos ânimos criaria problemas desnecessários e, por isso mesmo, era melhor confiar nos frutos dos seus 21 anos de repressão.
A eleição do governo Collor, por sua vez, mostrava que muito deveria ser feito para a consciência de classe ser forjada, para ter espaço um desenvolvimento de país, pautado na implantação de direitos sociais, pois, como sabemos, ele representava algo que até hoje nos caracteriza enquanto cultura política: personalismo, poder econômico, influência midiática etc., ou seja, um governo da burguesia.
Ainda no governo Collor, compreenderíamos a possibilidade da mídia encontrar bodes expiatórios para a população para, logo em seguida, vir com medidas ainda piores: o governo Collor que arrebentava nossa economia com sua ânsia em negociar o país era perigoso, poderia fortalecer o campo representado pelo PT de Lula e, por isso mesmo, impedir Collor seria a saída mais inteligente para não desgastar ainda mais o plano neoliberal.
Entra Itamar, um governo morno e, novamente, a democracia burguesa mostra porque veio, elegendo FHC, com nova derrota ao campo petista, mostrando que o pensado para o impeachment de Collor de fato se concretizava.
Neoliberalismo: privatizações em troca de migalhas, desemprego, inflação, miséria.... Corrupção! Reeleição é comprada.
Para não dizer que tudo foi ruim, Plano Real vem e estabiliza a economia.
Em 2002, diante de um fraco candidato tutelado por FHC, Lula (após a “carta à burguesia”) é eleito. Contexto favorável, economia crescendo, inflação baixa, investimentos na construção civil, indústria automobilística, geração de emprego, programas sociais, cotas, universidades, prouni, ciências sem fronteiras (me ajudem a lembrar de todos os programas) e Lula faz o melhor governo que o Brasil já teve e, não podemos tirar os méritos, pois, com toda certeza, um governo tucano, por exemplo, mesmo com o contexto favorável, não teria realizado e ido em direção das demandas populares.
Pois bem, Lula faz sua sucessora, Dilma. Um governo com pouca habilidade e carisma, crise internacional, elite raivosa, manifestações de julho de 2013, eleição polarizada, mídia e elite sem aceitar a derrota, congresso mais conservador desde 64: crise política! Impeachment.
Afinal, o que significa? Sim, significa o fim de investimentos nas áreas sociais, significa privatizações, significa subserviência ao mercado etc. UM RETROCESSO TREMENDO!
Mas, amigos e amigas, choramingar, culpar o outro, resmungar, achar que é o fim do mundo etc., acho que é forçar a barra. Primeiramente, quem criou essa imagem do PT como salvador da pátria, como um partido acima de críticas, que expurgava os que discordavam do caminho adotado? Lembremos que, enquanto teve o povo do lado, o PT, ao invés de sinalizar para mudanças estruturais, como taxação de grandes fortunas e reforma agrária, essenciais para criar um desenvolvimento interno com mais autonomia, apostou na expansão do consumo, sem nunca tocar nos interesses elitistas e, vale lembrar, deixando de lado o papel de briga ideológica, renovando concessões para seus algozes, estimulando os movimentos sociais para que “guardassem a bandeira”. Ou seja, pela manutenção do poder, foi necessário entrar no jogo burguês, para conseguir governabilidade, sem radicalizar, sem se apoiar em que lá os colocou. Resumindo: aceitou o jogo democrático burguês! Reforma política? Nem discutiram.
Ou seja, na crise econômica global, a mídia e as elites (não aprendemos nada com a história!) mostra seu poder: cria a crise política, o PT e Dilma são postos como seus bodes expiatórios e, cá estamos com um governo que representa todo o retrocesso possível.
Desculpe a frase embolada, mas esforce-se para entender: o PT do PMDB do Cunha substituído por Maia com voto do PT da lei antiterrorismo contra os movimentos sociais formado pelo povo que engolia e queria luta contra a lei da terceirização.... É golpe? É golpe! Profundo, dolorido, pois, engendrou-se com os “companheiros e camaradas”, que aceitam o discurso de união de classes, de diálogo, na mesa de negociação que sempre pende para as elites.
Infelizmente, diante da lama que a história do PT foi jogada, o impeachment de Dilma tenha sido uma saída para não termos visto esse mesmo governo petista fazendo as reformas antipopulares que já haviam sido iniciadas, ainda no governo Dilma.
O que estou querendo dizer com isso? Não estou descartando a tese da elite subserviente, da mídia golpista, do poder estadunidense etc., pelo contrário, estou reafirmando-a e mostrando que, entre os caminhos possíveis, dentro da dialética, nós erramos, enquanto movimento social, enquanto partidários ou adeptos do PT, enquanto cidadãos e cidadãs conscientes. Escolhemos o caminho errado!
Arcaremos com isso. E, o desabafo que me fez iniciar esse texto, fica em tom de conclusão, para reflexão: você amiga, amigo, estudante, intelectual, trabalhadora e trabalhador, mas, principalmente você, jovem “cult”, descolado, que odeia o sistema, mas que vê a luta dos camaradas e não fortalece; que quando é convidado pro debate nunca pode; que quando é chamado pra manifestação nunca pode; que quando é chamado pra ocupação nunca pode; que quando é chamado pra reunião nunca pode etc., infelizmente lhe digo: a sua indignação, sua irritabilidade, sua tristeza, também é culpa sua, mais sua do que da direita. Que suas palavras reflitam-se em atos a partir de agora! Ser socialista, comunista, progressista, não pode ser mera retórica, não pode ser estética, superficialidade. Tem que ser postura, consciência, construção coletiva ou, eternamente, nesse simples jogo entre nós e os algozes, nós sempre perderemos.
Talvez seja triste, pois lembra um contexto parecido, levanta uma frustração, uma sensação de “poderíamos ter evitado”, mas o que lembro agora é daquela música: “vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe, faz a hora e não espera acontecer”. E, completo o trecho com outro: “muita gente se esqueceu, que a verdade não mudou”. A real democracia só existe em um governo que se paute numa construção socialista, de enfrentamento, reconhecendo que é vida ou morte pois, para muitos de nós pode não ser, o impeachment será mais uma página virada... mas, para muitos, significará a fome, a dor e a morte.